O que aconteceria se de repente todo o mundo ficasse cego?
O livro do autor português Ensaio Sobre a Cegueira levanta algumas hipóteses.
É deliciosamente apropriado que Saramago tenha intitulado o seu livro de "ensaio", afinal, com seu ensaio sobre a cegueira, ele levanta algumas questões incômodas, assemelhando-se a esse gênero mais acadêmico.
Mas não se engane: este é um "ensaio" com uma ótima narrativa escatológica, que aborda nossos medos mais primordiais, como a perda da identidade, a perda da humanidade, e, demonstra como a nossa organização em sociedade é frágil.
O livro do autor português Ensaio Sobre a Cegueira levanta algumas hipóteses.
É deliciosamente apropriado que Saramago tenha intitulado o seu livro de "ensaio", afinal, com seu ensaio sobre a cegueira, ele levanta algumas questões incômodas, assemelhando-se a esse gênero mais acadêmico.
Mas não se engane: este é um "ensaio" com uma ótima narrativa escatológica, que aborda nossos medos mais primordiais, como a perda da identidade, a perda da humanidade, e, demonstra como a nossa organização em sociedade é frágil.
Análise do livro:
Ensaio Sobre a Cegueira
Ficha técnica:
Autor:José Saramago
Uma cegueira altamente contagiosa - os cegos dizem enxergar um "mar de leite" - ataca uma cidade sem nome com uma cegueira sem precedentes.
Como o autor explica isso?Uma mutação? Um castigo divino?
O Ensaio é uma narrativa kafkaesca por valer-se de uma premissa absurda com uma abordagem realista dos pormenores. Por isso, não importa o porquê. O autor determina uma lógica interna, onde tal cegueira é possível, para então, descrever as consequências da epidemia com detalhes excruciantes.
E ele não tem pena do leitor e o declínio da humanidade é sujo e brutal.
Como o autor explica isso?Uma mutação? Um castigo divino?
O Ensaio é uma narrativa kafkaesca por valer-se de uma premissa absurda com uma abordagem realista dos pormenores. Por isso, não importa o porquê. O autor determina uma lógica interna, onde tal cegueira é possível, para então, descrever as consequências da epidemia com detalhes excruciantes.
E ele não tem pena do leitor e o declínio da humanidade é sujo e brutal.
O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.
Alguns autores conseguem escrever sobre as pequenas coisas que acontecem do cotidiano com as quais o leitor se identifica, como por exemplo, quando o autor narra como "brincamos de cego", só para ver como seria. Não é só isso: tudo muito familiar, e todos os detalhes das complicações que surgem com essa cegueira em massa, como a falta de comida, os problemas com saneamento...
Conforme lemos, nos colocamos no lugar da Mulher do médico, a única testemunha ocular das barbaridades que ocorrem na quarentena.
O leitor se pega imaginando se faria algo diferente, estivéramos nós na mesma posição...
Eu me peguei imaginando como seria fácil matar os cegos da "ala dos bandidos''. Bastava roubar a arma deles e despistá-los caso tentassem reagir.
Ou especialmente terrível, colocar-se no lugar dos cegos andarilhos, imaginando o desamparo de se perder na rua e não conseguir mais voltar para casa. O livro é difícil para o leitor. E também o foi para o autor:
Conforme lemos, nos colocamos no lugar da Mulher do médico, a única testemunha ocular das barbaridades que ocorrem na quarentena.
O leitor se pega imaginando se faria algo diferente, estivéramos nós na mesma posição...
Eu me peguei imaginando como seria fácil matar os cegos da "ala dos bandidos''. Bastava roubar a arma deles e despistá-los caso tentassem reagir.
Ou especialmente terrível, colocar-se no lugar dos cegos andarilhos, imaginando o desamparo de se perder na rua e não conseguir mais voltar para casa. O livro é difícil para o leitor. E também o foi para o autor:
Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.
Enfim, em 2009, o livro foi adaptado para o cinema. Blindness, dirigido por Fernando Meirelles, não agradou ao público. As principais críticas eram as cenas fortes, a inverossimilhança da cegueira branca e a passividade da protagonista.
Irônico, não?
A questão principal do filme era justamente a conivência da protagonista. A premissa é apenas "uma desculpa" para abordar o tema de (falta de) humanidade.
Há vários tipos de cegueira em discussão: a cegueira da conivência, a cegueira literal, a cegueira com o próximo...
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| Imagine como seria acordar e enxergar um mar de leite. |
Aliás, este é um grande livro da literatura portuguesa. Um grande livro que podemos lerno idioma original - nada é perdido na tradução: todas as palavras e significados que o autor pretendia transmitir estão ali.
Quando é que tivemos um livro "pós-apocalíptico", com toques de Stephen King no nosso idioma?!
O Ensaio foge das formas do romance tradicional, que por vezes afasta leitores menos experientes.
Quando é que tivemos um livro "pós-apocalíptico", com toques de Stephen King no nosso idioma?!
O Ensaio foge das formas do romance tradicional, que por vezes afasta leitores menos experientes.
Vale destacar a forma como o autor pontua seus diálogos, que torna a leitura muito mais fluída. É meio difícil explicar. Mais fácil mostrar um trecho:
Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro.
Concluindo, Saramago demonstra nesse "ensaio", que somos incapazes de enxergar o sofrimento do próximo. Essa é a cegueira branca. A cegueira do egoismo, da intolerância, da indiferença.
Ou nas palavras do autor...
Ou nas palavras do autor...
Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Nota: 

















Isso é tudo, pessoal!
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