Colunas do Batatas

20/12/2017

O que é a cegueira branca? Análise do livro Ensaio Sobre a Cegueira

O que aconteceria se de repente todo o mundo ficasse cego?

O livro do autor português Ensaio Sobre a Cegueira levanta algumas hipóteses.

É deliciosamente apropriado que Saramago tenha intitulado o seu livro de "ensaio"
, afinal, com seu ensaio sobre a cegueira, ele levanta algumas questões incômodas, assemelhando-se a esse gênero mais acadêmico.

Mas não se engane: este é um "ensaio" com uma ótima narrativa escatológica, que aborda nossos medos mais primordiais, como a perda da identidade, a perda da humanidade, e, demonstra como a nossa organização em sociedade é frágil.


Análise do livro:

Ensaio Sobre a Cegueira

Ficha técnica:

Uma cegueira altamente contagiosa - os cegos dizem enxergar um "mar de leite" - ataca uma cidade sem nome com uma cegueira sem precedentes. 

Como o autor explica isso?Uma mutação? Um castigo divino? 

O Ensaio é uma narrativa kafkaesca por valer-se de uma premissa absurda com uma abordagem realista dos pormenores. Por isso, não importa o porquê. O autor determina uma lógica interna, onde tal cegueira é possível,  para então,  descrever as consequências da epidemia com detalhes excruciantes. 

E ele não tem pena do leitor e o declínio da humanidade é sujo e brutal.

O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.

Alguns autores conseguem escrever sobre as pequenas coisas que acontecem do cotidiano com as quais o leitor se identifica, como por exemplo, quando o autor narra como "brincamos de cego", só para ver como seria. Não é só isso: tudo muito familiar, e todos os detalhes das complicações que surgem com essa cegueira em massa, como a falta de comida, os problemas com saneamento... 

Conforme lemos, nos colocamos no lugar da Mulher do médico, a única testemunha ocular das barbaridades que ocorrem na quarentena.

O leitor se pega imaginando se faria algo diferente, estivéramos nós na mesma posição...

Eu me peguei imaginando como seria fácil matar os cegos da "ala dos bandidos''. Bastava roubar a arma deles e despistá-los caso tentassem reagir.


Ou especialmente terrível, colocar-se no lugar dos cegos andarilhos, imaginando o desamparo de se perder na rua e não conseguir mais voltar para casa. O livro é difícil para o leitor. E também o foi para o autor:

Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.

Enfim, em 2009, o livro foi adaptado para o cinema. Blindness, dirigido por Fernando Meirelles, não agradou ao público. As principais críticas eram as cenas fortes, a inverossimilhança da cegueira branca e a passividade da protagonista. 

Irônico, não? 

A questão principal do filme era justamente a conivência da protagonista. A premissa é apenas "uma desculpa" para abordar o tema de (falta de) humanidade.

Há vários tipos de cegueira em discussão: a cegueira da conivência, a cegueira literal, a cegueira com o próximo...

Imagine como seria acordar e enxergar um mar de leite.

Aliás, este é um grande livro da literatura portuguesa. Um grande livro que podemos lerno idioma original - nada é perdido na tradução: todas as palavras e significados que o autor pretendia transmitir estão ali. 

Quando é que tivemos um livro "pós-apocalíptico", com toques de Stephen King no nosso idioma?!

O Ensaio foge das formas do romance tradicional, que por vezes afasta leitores menos experientes.
Vale destacar a forma como o autor pontua seus diálogos,  que torna a leitura muito mais fluída. É meio difícil explicar. Mais fácil mostrar um trecho:

Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro.

Concluindo, Saramago demonstra nesse "ensaio", que somos incapazes de enxergar o sofrimento do próximo. Essa é a cegueira branca. A cegueira do egoismo, da intolerância, da indiferença.

Ou nas palavras do autor...

Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

Nota: 

Isso é tudo, pessoal!

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