Colunas do Batatas

12/12/2017

Hogfather

Para algumas pessoas natal significa família (sem esquecer de suas raízes religiosas).

Para alguém que tenha deixado a infância para trás ou que não tenha filhos, o natal é só mais um dia. Uma data comercial.

Esse alguém fica mais ansioso para a Black Friday do que para o Natal.

Para esses, que perderam a espírito natalino, temos Hogfather, vigésimo livro da série Discworld, que é um dos melhores argumentos a favor do Natal.


Hogfather é o vigésimo livro da série Discworld e o quarto livro protagonizado pelo Morte.

O enredo começa quando os Auditores da Realidade (criaturas obcecadas com ordem e regras) contratam um assassino para matar o Hogfather (o equivalente do Papai Noel no Mundo do Disco).

Mas por quê? Bom, tudo que sabemos é que os Auditores não gostam dos humanos, então presume-se que há algo a mais por trás do que apenas impedir que crianças ganhem presentes do bom velhinho.

O Morte, sendo uma forma antropomórfica onisciente, sabe de tudo isso, mas não pode fazer nada a respeito do assassinato porque não pode interferir diretamente nos assuntos humanos.

Por isso, instiga sua neta adotiva, Susan, a lidar com a situação.

Enquanto isso, Morte dá um tempo em seu trabalho como ceifador sinistro e assume o papel do bom velhinho.

É mais engraçado imaginar um esqueleto vestido de Papai Noel enquanto você le o livro do que ver a imagem do Morte vestido de Hogfather proporcionada a nós pela adaptação televisiva, mas aí vai:


Hogfather desconstrói sem pena muitas tradições do natal, ao mesmo tempo enaltecendo a importância dessas tradições.

Morte impede que a menina da caixa de fósforos morra congelada, por exemplo.

Hora, se a função do bom velhinho é distribuir presentes, que presente melhor para se dar a menina da clássica história infantil senão um futuro?

O livro ainda critica o pequeno problema das pessoas que são babacas todos os dias do ano e decidem ser caridosos na véspera de natal.

Enfim, há muitos problemas com algumas das tradições natalinas, mas Pratchett devidamente aponta que a inocência da criança que acredita no bom velhinho não é um desses problemas.

Pratchett era um ateu, mas não do tipo científico. A encorporação do científico e as regras da racionalidade no Discworld são os Auditores, os vilões desse livro.

O Morte sabe que arruinar a inocência das crianças é mortal para a humanidade. Morte repetidamente alerta que se o Hogfather não tiver sido encontrado a tempo do Hogswatch, o sol não nascerá.

O que morte quer dizer, é que o "sol", seus significados e os dia-a-dia como o conhecemos por mais de milênios deixaria de existir. No dia em que a criança perde o natal, não nasceria o sol, mas apenas uma bola de gás.

Ciência e racionalidade não é de todo mal, mas o acreditar é que dá cor e poesia para a vida. 

Mesmo que esse acreditar tenha significados falsos, não deixa de ser essencial para a experiência humana.

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