Colunas do Batatas

29/10/2015

OPERADORES DE LEITURA DA NARRATIVA: O TEMPO

Como sou fascinado pela literatura, sempre me interessei pelas engrenagens que fazem o romance funcionar. Uma delas é o tempo, do qual falaremos um pouco neste post.

“O romancista é senhor do espaço e do tempo [...]”


TEMPO OBJETIVO (CRONOLÓGICO)
Referente à sucessão temporal dos acontecimentos. Pode ser mensurado pela passagem dos dias, das estações do anos, de datas, enfim , por todo tipo de marcação temporal objetiva.


TEMPO SUBJETIVO (PSICOLÓGICO)
Vincula-se ao tempo cronológico, mas difere deste porque se trata do tempo da experiência subjetiva das personagens. Caracteriza, pois, o tempo vivencial destas, o modo como elas experimentam sensações e emoções no contato com os fatos objetivos e, também, com suas memórias, fantasias, expectativas.

Exemplo de tempo cronológico: 

Era um dia frio e ensolarado de abril e os relógios batiam treze horas. 
(1984, de George Orwell)

Exemplo de tempo psicológico: 

Também se lembrava de Roland dizendo que mesmo a batalha mais curta, do primeiro tiro ao último corpo que cai, pareceu longa para os que dela participaram.” 
(A Torre Negra, de Stephen King)

ORDEM:  Compreende a relação entre a ordem (disposição) dos acontecimentos da história e a ordem de apresentação desses mesmos acontecimentos no discurso (história construída). Como a ordem dos acontecimentos na história e no discurso raramente coincide, criam-se anacronias – desencontros entre a ordem dos acontecimentos na história e a ordem de sua apresentação no discurso narrativo.

Narrativa in media res: o discurso narrativo se inicia com a apresentação de um acontecimento que pertence ao desenvolvimento da história.
Narrativa in ultima res: recuo no tempo que se inicia com a apresentação de um acontecimento que pertence ao desfecho da história.
Analepses: recuos no tempo que permitem a recuperação de fatos passados. Corresponde ao que em linguagem cinematográfica é chamado de flashback, mas é anterior, como técnica narrativa, a esse recurso.
Prolepses: antecipações no tempo, que permitem a anteposição no plano do discurso, de um fato ou situação que só aparecerá mais tarde no plano da narrativa. Corresponde ao que, em linguagem cinematográfica é chamado de flashfoward.

In media res significa "no meio das coisas", ou seja, a narrativa começa pelo meio. Filmes como A Origem, Kill Bill, Pulp Fiction, Amnésia e Os Suspeitos são bons exemplos. Cuidado: há o perigo de o leitor se perder in media res, e esse recurso muitas vezes é evitado pelos grandes financiadores de filmes, pois consideram que parte do público pode achar difícil acompanhar múltiplas linhas de narrativas. 
Gráfico exemplificando tempos narrativos não convencionais.
Lost, seriado americano famoso pelo uso engenhoso de flashbacks e flashfowards.

DURAÇÃO: Trata-se de um desencontro entre a duração dos acontecimentos no plano da narrativa e a duração do relato desses mesmos acontecimentos no plano do discurso narrativo. As relações de duração implicam a construção dos seguintes e distintos recursos:


Cena: coincidência entre os acontecimentos da história e o relato dos mesmos acontecimentos na narração. Sua marca mais evidente são os diálogos, marcados pela presença do discurso direto.
Sumário: incongruência entre os acontecimentos da história e o relato dos mesmos acontecimentos na narração. O narrador resumo, em nível de discurso, e os acontecimentos que, na história, marcam-se por um tempo longo. Sua marca mais evidente é a utilização de discurso indireto pelo narrador na apresentação resumida dos acontecimentos da história.
Elipse: o narrador exclui determinados acontecimentos da história no plano do discurso narrativo.
Pausa descritiva: o narrador aumenta a temporalidade por meio da inserção de descrições que alongam o tempo, criando, desse modo, anisocronias.
Digressão: o narrador introduz comentários no discurso narrativo, fazendo com que o tempo da história pare o tempo do discurso narrativo (narração) se alonge.

O  protagonista pode torna-se adulto durante uma música de 3 minutos.
TEMPO METAFÍSICO OU MÍTICO: é o tempo do ser. Acima ou fora do tempo histórico ou do tempo psicológico, embora possa neles inserir-se ou por meio deles revelar-se, é o tempo ontológico (existencial) por excelência, anterior à História e à Consciência, identificado com o Cosmos ou a Natureza. Tempo de todos, não de um indivíduo, tempo da humanidade quando era um só corpo primordial, originário, sempre idêntico, tempo dos arquétipos (Jung), concretizado na recorrência infinita dos ritos e das festas sagradas, quando se torna presente para o homem desejoso de retomar contato com o tempo das origens; tempo sacro, tempo eterno, sem começo nem fim.

Dele nos falam os relatos míticos dos povos que continuam imersos graças à sua cosmologia mágica num tempo que sempre volta, inesgotável e igual, e dele temos uma ideia quando percebemos, por sobre os ombros das personagens dum romance que flutuam sem o saber num tempo que não se confunde com a sua história ou a sua psicologia. Revelando sempre que um gesto adquire, pela repetição, fisionomia litúrgica, o tempo mítico tornou-se obsessão nas estéticas simbolista e pós-simbolista: o teatro lírico, ou a poesia dramática, dum Maeterlinck ou dum Pessoa, decorrem duma dimensão de tempo que pressupõe o mítico ou o sagrado; e a poesia surrealista ou a cosmovisão médio-cavaleiresca dum Guimarães Rosa expressa na identidade sertão = mundo, são outros exemplos da instauração do tempo mítico no espaço literário. 

Depois de tudo isso, percebe-se a importância do tempo. Afinal, em um dia de leitura podemos viver anos e anos.

Fontes:
- Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas / organização Thomas Bonnici, Lúcia Osana Zolin. Maringá; Eduem, 2003.
- http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/InMediasRes
™- A Criação Literária. Massaud Moisés, 1979.