PRAÇA ONZE
O samba e a identidade brasileira
A postagem de hoje é sobre a Praça Onze, um marco para a história e cultura brasileira. Além de ser conhecida como o berço do samba, foi o palco dos primeiros desfiles de carnaval. Com uma história rica em cultura, a praça foi uma rua cosmopolita do Rio de Janeiro que deixou uma grande herança cultural para os brasileiros.
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| Imagem da Praça Onze, o berço do samba |
Antes se tornar um representante cultural brasileiro, o samba foi sendo criado aos poucos, surgido num berço de diversidade cultural. Os descendentes dos africanos que vieram ao Brasil colônia traficados como escravos e trouxeram consigo sua cultura contribuíram com os batuques, por exemplo. Os mesmos ritmos que eram usados em cultos religiosos (em que a comunicação ritual se dava por meio da música e da dança) foram aproveitados no samba.
Foi no fim do período colonial, com a independência do Brasil, que houveram tentativas de encontrar quais os elementos que definem a identidade brasileira. Do projeto indianista, ao movimento tropicalista, ao longo do tempo, estabeleceram-se algumas crenças sobre a brasilidade. Uma delas, é uma noção de senso-comum que o samba é o gênero musical nacional (ALMEIDA, 2016). Assim como o samba, o carnaval também é considerado com frequência um símbolo da brasilidade. Nas palavras de Jost (2015)
O samba, como foi formatado no início do século XX no Rio de Janeiro, acabou se tornando, por vários motivos, ponto pacífico em nossa sociedade como um dos agentes culturais que melhor representa o “ethos” brasileiro. Esse é um dado irrefutável da nossa história e que coloca o samba, de certa forma, como uma referência fundamental para os debates sobre nossa formação social. (JOST, 2015, p. 113)
Foi no século XX que o samba se firmou como gênero musical e teve parte na formação da identidade brasileira. Nessa época, o gênero musical ainda predominava entre os subúrbios e os morros cariocas (de forma parecida com a que o funk surgiu na periferia).
Conforme o samba tomava forma, eram feitos encontros na casa de uma líder religiosa, chamada Tia Cata, onde encontros religiosos ou festas, reuniam os músicos responsáveis pelas criações do gênero musical. Artistas como Pixinguinha, Donga, Sinhô e João da Baiana passaram por essa casa.
Para falar da origem do samba, se faz a necessidade de falar sobre o seu berço: a Praça Onze de Junho. Vale notar que a região era completamente inabitada até o século XVII por ser uma área pantanosa, o que dificultava o desenvolvimento urbano (LUCENA, 2016). Segundo Lucena (2016), foi só com a intervenção da Família Real, em 1810, que a região começou a se desenvolver.
Na Praça eram bem vindos os negros (recém libertados) e os imigrantes europeus, como os italianos portugueses, espanhóis e judeus, que que deram origem a um bairro com comércios judaicos. Conforme Lucena (2016), a demografia da Praça conferiu a região um ar cosmopolita, em que muitas pessoas de culturas diferentes conviviam. Isso por que, além do fim da escravidão, na época, o Estado incentivou a imigração de europeus para o Brasil.
É justamente esse ambiente em que predomina um pluralismo cultural, que faz surgir, no início do século XX, o samba e o carnaval. A população local reunia-se na Praça Onze, e inspirados nas batucadas trazidas pelos africanos, origina-se um novo gênero musical: o samba.
Na década de 30, a modernização na região faz com que a Praça perdesse espaço. Contudo, mesmo que nada da Praça original tenha restado, continua sendo importante para o samba que é atualmente a região em que estão localizados o Terreirão do Samba e o Sambódromo projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e inaugurados em 1984.
Com a popularização do gênero musical, Getúlio Vargas aproveitou a o samba para afirmar-se como ícone nacional, populista e promover um nacionalismo. Com isso, em 1937 o país ficou sob o regime do Estado Novo comandado por Getúlio Vargas. Um dos principais agentes firmadores da ditadura era o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que cuidava da propaganda e da censura. Mas ao mesmo tempo, o DIP era responsável por uma rádio com grande alcance nacional e muitos cantores populares tiveram espaço ali.
Além de discutir a gênese do samba e as tentativas de usá-lo como a bandeira da brasilidade, vale a pena discutir o contexto histórico da época. Um primeiro fato interessante a ser notado, conforme Jost (2015), é que embora o samba tenha surgido em terreiros e tenha sido frequentemente associado a periferia durante o seu fortalecimento como movimento cultural, o samba foi além da periferia, ganhando espaço e ao longo do século 20 em locais de mais prestígio. O samba logo se tornou uma expressão cultural bastante democrática. Isso é evidenciado na letra da música de Cartola, chamada Tempos Idos:
Onde os malandros iam sambar
Depois, aos poucos, o nosso samba
Sem sentirmos se aprimorou
Pelos salões da sociedade
Sem cerimônia ele entrou
Já não pertence mais à Praça
Já não é mais samba de terreiro
Vitorioso ele partiu para o estrangeiro
Foi daí que o samba ganhou espaço em várias níveis sociais, mesmo que houvesse um histórico de violência, em que rodas de samba eram reprimidas:
A Lei de Vadiagem aprovada no Código Penal sancionado em 1890, estabelecia que o ato de vadiar passasse a ser contravenção. Foi baseado nela que o poder público reprimiu, amparado pela legalidade, rodas de samba e festas de candomblé. (SIMAS, p. 03, 2017)
Concluindo...
Considerando tudo visto até então, é possível perceber que o samba é um dos grandes representantes da identidade nacional brasileira. Embora a literatura sobre a história desse gênero musical concorde a esse respeito, autores como Jost (2015) afirmam que ao usarmos o samba como o grande representante da cultura brasileira, falhamos em considerar que esse gênero musical é na verdade um híbrido composto por vários elementos de outras culturas. Visto isso, como poderia o samba ser um representante da nossa identidade cultural?
Da mesma maneira, o carnaval brasileiro, que teve como fundamento o samba, também é um híbrido cultural. A saber, os desfiles das escolas de samba tem raízes nos carnavais italianos/francesas (que por sua vez têm origem na Grécia antiga, com as festas de culto a Dionísio) e no entrudo português.
Ao dialogar com o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade (1976), encontramos a solução para esse enigma. Como bem sabemos, o samba foi criado pelos “antropófagos” da Praça Onze, que ao misturar vários elementos de várias culturas, criaram uma das expressões culturais mais forte do país. Uma rua conhecida como a Pequena África, em que predominava a multiculturalidade. Onde viviam judeus, escravos recém libertos e imigrantes europeus.
Foi nesse contexto multicultural que surgiu o samba. O que essas etnias têm em comum? Criaram o samba juntos, a partir de várias culturas. Ou como diz Oswald de Andrade: “Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente” (ANDRADE, 1976, p. 06).
Enfim, o samba continuou ganhando espaço para além de seus berços na periferia, e, além de ser um veículo de propaganda para Vargas, deu origem movimentos artísticos como o samba e o carnaval, pelo qual o Brasil é conhecido internacionalmente. O samba só surgiu por conta do momento histórico, em que o país adaptava-se a nova realidade de não ter a mão de obra escrava. A cultura africana influenciou largamente o surgimento do samba, e com o fim da escravidão, a cultura africana aflorou em solo brasileiro. Mais precisamente, na Praça Onze, a “Pequena África”, lar de terreiros e sinagogas... Portanto, é bastante apropriado que o gênero musical que melhor represente um país multicultural como o Brasil seja o samba, o gênero musical híbrido da Praça Onze.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, O. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976.
FERNANDES, C. Origem do Samba. Rede Omnia. 2017. Disponível em
JOST, M. A construção/invenção do samba: mediações e interações estratégicas. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, 2015.
LUCENA, F. Praça Onze berço do samba e lugar do povo. Diário do Rio, 2016.