Colunas do Batatas

03/12/2017

Análise do livro: Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

Resenha crítica para o livro Incidente em Antares

Publicado em 1971, Incidente em Antares é o último livro de Érico Veríssimo. Com um humor e ironia afiados, Incidente é abertamente político em sua sátira. O autor não esconde a sua crítica ao autoritarismo brasileiro, e é um milagre que não tenha sido censurado pelo Regime Militar.
Incidente é dividido em duas partes. Na primeira, é narrada a história de Antares, uma pequena cidade fictícia do Rio Grande do Sul. Essa primeira parte conta quase 200 páginas, nas quais o autor descreve fundação de Antares, as tradições, etc. Não é à toa que Veríssimo é um escritor conhecido por seus romances regionalistas, como O Tempo e o Vento e Olhai os Lírios do Campo, pois o livro presentemente analisado segue essa tendência. Mas Incidente não é apenas um romance regionalista. Veríssimo dedica a primeira parte do livro a desenvolver um fundo temático da história e preparar o terreno para a segunda parte. Narra, por exemplo, o histórico violento da cidade, em que duas oligarquias disputam o poder dentro de Antares: a família Vacariano e a família Campolargo, que lutam para manter seus privilégios (e para isso não têm medo de usar a violência contra a cidade ou contra a família rival).
É por meio de diferentes gerações dessas famílias, que Veríssimo expõe as hipocrisias da sociedade brasileira. Por exemplo: Tibério Vacariano ironizava a figura de Getúlio Vargas, enquanto os membros da família Campolargo o defendia. O fato de que duas gerações depois, quando o Brasil se sob a liderança política de Jango e Brizola, as duas famílias se unem para conseguir manter seus privilégios é outro exemplo. É dessa maneira, que a história do Brasil e as narrativas do livro vão se entrelaçando. Portanto, além de romance regionalista, retratando seu estado de origem, Veríssimo também traz nesse livro uma declaração sobre o Brasil: será que o brasileiro é honesto e cordial por natureza mesmo? Antares funciona como um microcosmo da corrupção, injustiça social, e violência no Brasil.
Na segunda parte, o autor se aproveita do desenvolvimento de personagem e de cenário que fizera até então para ter como base para a narração do conflito principal do livro. Cansados de serem explorados, as tensões crescem, e as classes operárias começam a ficar descontentes. Quando irrompe a greve geral, os coveiros da cidade também participam, e isso impede o enterro dos mortos. Naquele dia, com as tensões em alta, morreu uma quantidade alta para uma cidade como Antares. E as sete pessoas, por ficarem sem sepultamento, voltam a vida, causando assim o incidente que dá nome ao livro.
Segundo Bordini (2006), a ideia para o livro surgiu quando Veríssimo viu uma foto em uma revista norte-americana que mostrava coveiros em greve deixando mortos à espera de sepultamento. Com isso ele criou a hipótese: E se esses mortos decidissem fazer greve contra os vivos?
É aqui que Érico Veríssimo se vale do realismo fantástico, em que a premissa da história simplesmente é. O acontecimento é sobrenatural e dispensa explicações ou racionalização. Aliás, o Incidente é eficaz justamente por isso: o autor dá o mesmo tratamento que dá para a parte mais absurda do livro que dá e para a parte mais histórica. As duas partes ganham o mesmo tratamento; as duas são ricas em detalhes do cotidiano e com uma seriedade de coisa que existe (mas o narrador onisciente sempre parece ter um sorrisinho de canto de rosto, satirizando todas essas situações). Embora essas duas facetas do livro recebam o mesmo tratamento, é interessante notar um contraste que existe entre essas, sendo que a primeira parte do livro às vezes assemelha-se a uma série de registros históricos, enquanto a segunda, é bem mais centrada na ação de personagens.
Seguindo esse espírito do realismo fantástico, os mortos acordam e tratam a situação de forma bastante prosaica. Para os mortos-vivos é inadmissível que eles sofram ainda mais esse indignidade, mesmo depois de mortos. Ou alguns dos mortos insepultos, que levantam de seus caixões e encaram a situação como um simples inconveniente. Eles são tão pragmáticos, que ao acordar, juntos, elegem como líder dos mortos Cícero Branco, advogado respeitado em Antares que morrera de AVC na véspera da greve geral. Os insepultos não se sentiam mortos, de fato, não se sentiam nem um pouco diferentes do que sentiam na noite anterior. Mas tampouco sentiam que tinham direito à vida ou queriam continuar a viver. Por isso, (depois de muito debate, lógico!) decidem marchar rumo a um coreto que se encontra no centro da cidade e exigir que fossem enterrados. Chegando lá, obviamente causam pânico absoluto na cidade. Eles esperam pacientemente enquanto o terror da população se transforma em curiosidade mórbida, e, com isso, os vivos se reúnem para ouvir o que os mortos têm a dizer. Com mais doses de realismo fantástico e sátira, os vivos, absurdamente, negam o pedido dos insepultos. Eles simplesmente pedem desculpa pelo “inconveniente”, e argumentam que é impossível enterrá-los por conta da greve geral. Com isso, os mortos ficam enfurecidos e decidem se vingar.
Mas qual é a arma que os mortos têm contra os vivos? A verdade. Eles sabem todos os podres de vários membros importantes da sociedade antarense. Adiciona-se a isso, o fato de que ao morrer, os insepultos estão sem as máscaras do dia-a-dia e sem as amarras sociais dos vivos, então eles não têm medo nenhum de confrontá-los com todas as verdades que eles têm para denunciar. Com isso, eles convocam todos os vivos para que comparecessem ao coreto na praça central da cidade para fazer uma espécie de julgamento da cidade.
Eles são um inconveniente para a cidade, que se recolhe, num primeiro momento por pânico e medo de um “juízo final” que estaria a acontecer, e num segundo momento por simples inconveniência: os mortos são uma vergonha para a cidade, eles têm um cheiro muito forte e atraem ratos, moscas e aves de rapina. Talvez motivados a vingarem a indignidade sofrida pelos vivos, denunciam toda a hipocrisia da sociedade antarense. Junta a Dona Quitéria e ao Advogado, temos os outros cinco membros da comitiva dos mortos. Esses, são arquétipos que representam classes da sociedade brasileira. Barcelona, por exemplo, representa a classe operária, Erotildes, as pessoas que vivem à margem da sociedade.
Em vida, Erotildes foi uma prostituta. Ela aproveita a atenção que ganha durante a assembleia dos mortos denunciando seus clientes mais notórios. Muitos cidadãos “de respeito” usavam seus serviços, traindo suas esposas. Além de tudo isso, Erotildes foi negligenciada pelo médico da cidade, levando-a ao óbito, e o julgamento no coreto torna-se uma oportunidade de denunciar o médico.
Barcelona, um sapateiro anarquista, representa ao mesmo tempo a classe operária e a filosofia política que ameaça a ordem (mais especificamente, ameaça a posição de poder das famílias mais poderosas de Antares) do microcosmo de Antares.
Temos ainda João Paz, um comunista torturado pela polícia. Sendo que o julgamento na praça do coreto no mundo de Antares aconteceu logo antes do golpe militar no mundo real, é relevante que o fantasma do comunismo seja para esses personagens uma ameaça (assim como foi alegado durante o golpe militar de 64 que o motivo era deter a “ameaça comunista”). Essa linha de história é uma das mais tristes do livro e reflete as torturas que aconteciam no contexto histórico do Brasil sob o regime militar.
Não menos importantes, temos Pudim de Cachaça, um alcoólatra que morreu envenenado pela esposa e Menandro Olinda, um pianista genial que não teve reconhecimento e fama que almejava o qual Veríssimo usa para satirizar o intelectualismo de aparências da sociedade brasileira. 
Publicado durante a Ditadura Militar, Veríssimo não teve medo de escrever um romance que é uma alegoria de um Brasil em crise. O Incidente que ocorreu em Antares (cidade que poderia ser qualquer cidade do país) não é exatamente os mortos voltando a vida, mas também um confronto da sociedade brasileira consigo mesma.
Outro ponto positivo do livro é a sua linguagem, cheia de neologismos e regionalismos. O verbo "filho da putear", por exemplo. Por conta da cidade fictícia de Antares ter fronteira com a Argentina, o livro traz bastante regionalismos nas falas do personagens que vem do espanhol, que cumprimentam-se com buenas e misturam radicais do português com afixos do espanhol.
Concluindo, a obra de Veríssimo é conhecida por retratar o Rio Grande do Sul em seus romances regionalistas. No entanto, Incidente, seu último livro não retrata apenas os costumes dos gaúchos, mas retrata todo o Brasil. O autor localiza essa narrativa numa cidadezinha que faz fronteira com a Argentina, fazendo dela um microcosmo do país inteiro. O embate entre Vacarianos e Campolargos que marcou as gerações da cidade pode muito bem representar as crescentes tensões na jovem democracia em formação que era o Brasil ao longo do século 20. As duas famílias tinham ideias políticas diferentes, mas em última análise têm apenas lutado para manter sua posição de privilégio, controlando várias fontes de renda e de prestígio social ao redor de Antares. Veríssimo está em plena forma ao trazer uma alegoria sociopolítica para o Brasil em Incidente. O incidente que dá nome ao livro causou bastante inconveniente aos cidadãos antarenses, que não suportavam mais o mal cheiro, mas foi quase que completamente esquecido por eles quase que imediatamente. Mas como ignorar, o cheio que era descrito com tanta frequência na parte dois do livro? O cheiro que outra alegoria, dessa vez para as hipocrisias e crimes morais dos brasileiros, os quais preferimos confortavelmente ignorar.

Referências

Érico Veríssimo. Incidente em Antares.

Maria da Glória Bordini. Incidente em Antares - a circulação da literatura em tempos difíceis. Revista USP, 2006. Disponível em: < https://blogdoims.com.br/bate-papo-erico-verissimo-e-incidente-em-antares/> Último acesso em 18/11/17

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