Colunas do Batatas

10/01/2018

"A desgraça afervora ou aquebranta o amor?"

A postagem de hoje é sobre Amor de Perdição, clássico da literatura portuguesa!

Para alguns, o "livro clássico" é sinônimo de livro difícil. No entanto, conforme vamos lendo, percebemos que esse livro não é tão diferente assim se compararmos a esses romances modernos em que um casal quer ficar junto apesar de todas as adversidades.


Tanto é que o casal protagonista de Amor de Perdição, Teresa e Simão chega a se perguntar:

A desgraça afervora ou aquebranta o amor?

Análise do livro:

Amor de Perdição

Ano: 2003 / Páginas: 152
Idioma: português 
Editora: Editora Ática
A grande obra prima de Camilo Castelo Branco conta a história de um amor impossível entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Domingos Botelho e Tadeu de Albuquerque, os patriarcas dos protagonistas, não aprovam a sua relação, servindo como os principais antagonistas do livro. Isso por que, na veia shakespeariana, o casal protagoniza uma história de um amor que resiste a uma contenda entre suas famílias.

O cenário inicial é Viseu, onde Simão e Teresa se conheceram: eles eram vizinhos de janela e se apaixonaram perdidamente. No entanto, conforme as complicações surgem, o cenário muda, afastando cada vez mais o casal apaixonado. 

Apesar de ser uma mulher vivendo no século XIX, sempre que é possível Teresa apodera-se de sua agência: ela precisa resistir à pressão de seu pai o tempo todo, que está firme no intento de arrumar um casamento “ideal” para sua filha. Tal pretendente é Baltasar Coutinho, primo de Teresa. O fidalgo, com o apoio do pai de Teresa não mede esforços em conquista-la. Suas investidas não dão certo, e o pai de Teresa intercede usando chantagem emocional e a dependência que Teresa tem em seu pai numa sociedade oitocentista. Teresa está apaixonada por Simão e não se dobra: contra-ataca como pode, aceitando uma derrota em seus termos.
Estes ardis são raros na idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta de que rezam os meus apontamentos era distintíssima.
No fim das contas, Teresa não tem agência, e se vê enclausurada num convento da cidade do Porto. Se não é o desenlace desejado por Teresa, seu pai também não está contente. Simão, louco de amor, decide interceptar a comitiva que levava Teresa ao convento, e em romances mais otimistas, o herói lograria em salvar sua amada e eles teriam uma chance de materializar seu amor. Mas Amor de Perdição não é esse tipo de história, e a consequência do embate que se sucede os afasta ainda mais. A única maneira que eles conseguem manter contato é através de cartas, cujos textos são de uma prosa extremamente poética, o que é muito apropriado para o tom do romance. 
Simão, meu esposo.  Sei de tudo... Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua próxima morte, e então compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!... Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!... Porque não merecemos nos o que tanta gente tem?... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crê-lo! A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a aluz que me guiava de ti para a fé. Mas não pode findar assim o nosso destino.
                                           
                                                                        - Trecho da carta de Teresa para Simão


Como evidenciado no excerto acima, uma prosa poética reflete o amor extremamente dramático que é representado em Amor de Perdição, um rebento do ultrarromantismo. O autor pinta o amor entre Simão e Teresa como um amor ideal, um amor puro, mas fundamentalmente impossível: torna-se um amor de perdição por causa da sociedade, que por sua vez é pintada pelo autor com cinismo e ressentimento. 

Concluindo, ao falar de Amor de Perdição, não podemos esquecer de Mariana, a intrusa do romance entre Simão e Teresa. Ela faz de tudo por Simão, mas sabe que nunca poderá ter o amor dele. 

No fim, a morte de amores, a morte escolhida de Mariana foi, para mim, a perdição mais mordaz representada no livro.

Nota: 


Observações:

- O romance romântico agrada a um público predominantemente feminino, e para os contemporâneos de Camilo Castelo Branco não era diferente: em seu texto, o autor quebra a quarta parede, dirigindo-se exclusivamente às suas leitoras, tratando-as como "senhoras". 


- Escolhi essa capa para ilustrar a postagem por que planejava fazer uma piada com ela, mas ela é tão horrível que não sei nem por onde começar.

- O livro está disponível em qualquer livraria, biblioteca ou download disponível gratuitamente em acervos online como o instituto Camões e no domínio público.

- Recomendado para: quem gostou Romeu e Julieta, Dom Casmurro, A Culpa é das Estrelas e para quem quer se preparar muito bem para o vestibular, pois com esse livro é possível entender o espírito do Romantismo em Portugal.

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Abraços,


Lucas Botelho

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