Colunas do Batatas

10/12/2017

Resenha do livro: Lordes e Damas

Aproveitando-se da fama póstuma do autor britânico Sir Terry Pratchett, a editora Bertrand reiniciou as publicações dos livros da série Discworld no Brasil. O próximo da lista é Lordes e Damas, o primeiro que traz as bruxas de lancre como núcleo principal da história.

Análise do livro:

Ficha técnica:
Lordes e Damas (Lords and Ladies)
Discworld # 14
Terry Pratchett
Ano: 2015 / Páginas: 294
Idioma: português
Editora: Bertrand Brasil

Depois de "As Bruxas Viajam (1991)", Vovó Weatherwax, Tia Ogg e Magrat retornam à Lancre.

Elas são as bruxas dessa região, que fica na beira do Disco.

Mas o autor do livro tem uma ideia muito específica para o que é a bruxaria em seu mundo fantástico: as bruxas do mundo do disco, são poderosissímas, mesmo que não o demonstrem com feitiços espalhafatosos. Elas o fazem por meio de psicologia (cabeçologia), e por meio do seu conhecimento das engrenagens do universo. E a magia das bruxas é muito diferente daquela que os magos usam, ou nas palavras do autor:

O que é magia?
Há a explicação dos magos, que vem em duas formas, dependendo da idade dele. Magos mais velhos falam de velas, círculos, runas e a importância de ter pelo menos quatro boas refeições todos os dias. Magos mais jovens, particularmente os pálidos que passam a maior parte do tempo no edifício de Magia de Alta Energia.
As bruxas têm muitas habilidades, mas uma muito explorada nesse livro é a do "empréstimo", com a qual Vovó consegue ver o mundo através dos olhos de criaturas. Nos livros das Crônicas de Fogo e Gelo, alguns personagens têm a mesma habilidade, mas a forma que Pratchett escreve essas cenas é muito mais engenhosa. É uma habilidade comum nos romances fantásticos, e o autor é conhecido por satirizar o gênero. Então o autor traz a lógica para dentro do campo da fantasia. Como Vovó fica inconsciente quando faz os empréstimos, ela segura uma placa para saberem que não está morta, e quando volta ela sofre efeitos colaterais bizarros que dependem do animal que ela usou.
  
Os grandes vilões, os elfos, fazem o papel de antagonistas. Longe de serem os elfos Tolkien, é mais uma forma que Pratchett encontrou para subverter as convenções do gênero.

Sobre essa edição da Bertrand: ela vem com uma capa bonita e uma boa tradução. Eu imagino que seja desafiador traduzir o texto de Sir Terry Pratchett, e embora o trabalho de tradução seja sólido, não substitui o original em inglês.

O autor já foi acusado de criar uma boa sátira em detrimento de desenvolver bons personagens.

Então temos em Lordes e Damas, a Vovó Weatherwax, bruxa líder que enfrenta quaisquer ameaças sem vacilar. Ela é extremamente inteligente, e não acata a regra nenhuma da sociedade de Lancre. Isso acaba funcionando como uma sátira para costumes atuais.

Sério, a Vovó, é intocável.

E um personagem invencível normalmente não tem profundidade. Para ser um bom personagem, ele tem que ter fraquezas certo.

No entanto, a confiança da personagem em suas habilidades é parte de sua personalidade (e parte fundamental da bruxaria, demonstrar o seu poder para inspirar respeito).

Ela não é um personagem que demonstra afeto facilmente, e, mesmo assim, a amizade entre Vovó, Tia Ogg e Magrat é uma das mais bonitas da literatura fantástica, e não há lorde nenhum que fique no caminho da amizade das damas.

Nota: 

Gostou? Se gostou clique em curtir, comente, imprima e cole no poste, faz uma tatuagem, deixa os bens pra mim no testamento, dá o nome de filho em homenagem a mim e compartilha...

Ah, e comprando pela amazon, você ajuda o blogue!

Hasta luego!

06/12/2017

Estudando Literatura: Alexandre Herculano

Síntese da biografia:

Autor português;

Sua magna opera é Eurico, o Presbítero;

Também conhecido por retratar a história portuguesa;

Estudou francês, inglês e alemão;

Teve problemas com o clero por conta do conteúdo de seus romances;

Bibliografia
Obras principais de Alexandre Herculano

Poesia
  • A Voz do Profeta – 1836
  • A Harpa do Crente – 1838
  • Poesias – 1850
Teatro
  • O Fronteiro de África ou três noites aziagas
  • Os Infantes em Ceuta – 1842
Romance
  • O Pároco de Aldeia (1825) – 1851
  • O Galego: Vida, ditos e feitos de Lázaro Tomé
Romance histórico
  • O Bobo (1128) – 1843
  • O Monasticon
  • Eurico, o Presbítero: Época Visigótica – 1844
  • O Monge de Cister; Época de D. João I – 1848
  • Lendas e narrativas – 1851
1.º tomo
  • O Alcaide de Santarém (950-961)
  • Arras por Foro de Espanha (1371-2)
  • O Castelo de Faria (1373)
  • A Abóbada (1401)
2.º tomo
  • Destruição de Áuria: Lendas Espanholas (século VIII)
  • A Dama Pé de Cabra: Romance de um Jogral (Século XI)
  • O Bispo Negro (1130)
  • A Morte do Lidador (1170)
  • O Emprazado: Crónica de Espanha (1312)
  • O Mestre Assassinado: Crónica dos Templários (1320)
  • Mestre Gil: Crónica (Século XV)
  • Três Meses em Calecut: Primeira Crónica dos Estados da Índia (1498)
Para baixar sua principal obra, Eurico, o Presbítero, clique aqui.

Além da segunda temporada de Carnivàle

Se me perguntassem:

Vale a pena assistir Carnivàle mesmo tendo sido cancelada prematuramente?  

Eu digo que sim, pois o último episódio que temos tem bastante conclusões, pois os produtores sabiam do risco do cancelamento. Ficaram algums pontas soltas, sim, mas os escritores revelaram em entrevista a que direção a história seguiria caso a série houvesse sido renovada para as demais temporadas.

Dê uma chance ao seriado, mesmo com as pontas abertas deixadas pelo season finale abrupto, Carnivàle é um grande seriado.

Ah, e a tal entrevista com os criadores da série explica muita coisa pontas soltas, mas infelizmente, esse conteúdo não está disponível em português. O objetivo dessa postagem é disponibilizar esse conteúdo em português.

Entrevista com os criadores da série original da HBO, Carnivàle:



O criador da série explica que em Carnivàle, Avatar significa (assim como na mitologia hindu) "Descendente de Deídade". No entanto, nos episódios esse termo não é explicado (apenas aparece nas enigmáticas visões sofridas pelo protagonista). No monólogo de Sansom, o anão, que narra o prólogo da primeira temporada, usa os termos "Criatura da luz" e "Criatura da escuridão" para referir-se aos Avatares.

No folclore da série, os Avatares representam a luta entre o bem e o mal através dos séculos...

No mundo da série, vários acontecimentos históricos estão relacionados à guerras entre os avatares da luz e avatares das escuridão que existiram antes de Hawkins e Crowe. 

Por exemplo: a Idade das Trevas, no mundo de Carnivàle, aconteceu por conta da vitória da criatura da escuridão naquele ciclo  avatar. A era do Iluminismo por sua vez, aconteceu por conta da vitória de um profeta da luz.

No seriado, Insinua-se que a mera presença de Scudder no sul dos Estados Unidos foi a causa da depressão, das tempestades de areia e de todos, e que causava toda série de infortúnios à tudo e a todos por onde passava.

Detalhes como esse podem passar despercebidos aos espectadores. É bem interessante a forma com que a história do mundo real se funde com a do fictício, conferindo à narrativa de Carnivàle um quê de grandiosidade.

As casas ou dinastias:

As duas Casas (Luz e escuridão) têm uma inclinação moral especifica (bem ou mal), mas ambas tiram seus poderes da mesma fonte. Isso significa que Brother Justin pode curar as pessoas (mesmo tendo uma inclinação moral para a escuridão, sendo o poder de cura mais comum em Criaturas de Luz), assim como o protagnista, Ben Hawkins o faz. Justin também tem o livre-arbítrio para agir contra a inclinação moral de sua "Casa". 

Só que é muito difícil para um avatar resistir à sua natureza natureza. É por isso que Scudder e Brother Justin sofrem tanto. Isso quase nos faz ter pena do Justin, não?

Mais sobre os poderes dos avatares: há várias habilidades, como a projeção astral, a cura do corpo e do espírito, a transfêrencia de vida e doença, a persuasão...

Esses poderes são como talentos, alguns avatares são bons em telepatia outros são melhores em enxergar a pessoa e saber seu passado (Brother Justin quando faz as pessoas encarar seus pecados). Hawkins era muito bom em curar e transferir força vital, e o vemos fazê-lo várias vezes durante a série: quando ele cura a menina que não conseguia andar, quando ele cura a mente da mulher que se tornara insana com a morte de seu bebê, quando ele cura o espírito do homem que vendia o corpo de sua filha especial...

Mas todos sem exceção vêem em seus sonhos o passado, futuro e presente, seja de forma literal ou simbólica. Também enxergam os outros profetas e príncipes, e isso ajuda a convergir as duas tramas de Carnivàle no final.

A hierarquia das dinastias:

- Os Profetas

Profeta é o posto mais alto na hierarquia das dinastias Avatar e são os mais poderosos. Lucius Belyakov e Hawkins (que se tornou profeta no final da segunda temporada) são exemplos que vimos durante o curso das duas temporadas. Eles sempre têm Vitae Divina. Isso é, o sangue azul, que na vida real é associado à famílias nobres. No entanto podem ou não ter a "benção".

- Os Príncipes

Príncipe - Esse e o profeta são a mesma coisa, mas esse, tem poderes mais fracos esse. Para se tornar um Profeta, o Príncipe deve matar (atacando de surpresa) o antecessor de sua própria casa ou o Profeta atual pode conceder a benção por vontade própria (foi esse o caso de Hawkins e o Gerente). Se o princípe não conseguir o pegar de surpresa, o profeta usa uma barreira psíquica que pode matar o príncipe ou deixa-lo insano (era esse o medo de Brother Justin, e por isso que demorou tanto para matar o Scudder). O Príncipe vira Profeta por direito quando o profeta morre de causas naturais e ganha o Vitae Divina, mas perde para sempre a chance de conseguir a benção de seu antecessor. Isso significa que ele torna-se um Profeta com uma fração menor do poder.

- As Vectori

Mulheres não podem se tornar Princesas ou Profetas, apenas os homens primogênitos das dinastias. No entanto, elas exibem uma pequena fração do poder. Frequentemente isso lhes custa a sanidade. Dar a luz à um Avatar também resulta em insanidade (e esterilidade). É por isso que Hawkins não tem irmão e tinha uma relação delicada com sua mãe (ela era doida). Outro ótimo exemplo é a querida vovó do Hawkins que matou quase toda a família e arrancou os próprios olhos logo depois da dar a luz (também enlouqueceu ao dar a luz a um avatar).

Regra extra: A natureza das crianças nascidas avatar é aleatória. Um avatar da luz pode ter um filho da escuridão. Por exemplo, a "Gêrencia", Lucius Belyakov descobriu seus poderes quando teve o Alexei (Brother Justin) e começou a ter sonhos e premonições sobre seu filho e seus atos no futuro, e, por isso tentou matá-lo no berço. Foi isso que com que a mãe de Iris e Justin fugisse da Rússia para os Estados Unidos, onde ela sonhou que um homem sagrado iria proteger as crianças (esse homem é Baltus, padre-pai adotivo dos irmãos).

Regra extra: Um avatar pode conceder uma parte de seus poderes, porém requer um sacrifício (Lodz, por exemplo, que sacrificou a visão literal para ganhar a visão psíquica).

Regra extra: É muito comum dinastias acabarem. Uma dinastia dura em média 3 gerações, pois os avatares têm uma vida curta e brutal, e encontram seu fim seja por conflitos internos entre familiares de naturezas opostas, violência de homens comuns por um medo  do "diferente". Isso não significa o fim dos avatares na Terra. Quando uma dinastia é dizimada ela começa de novo aleatoriamente em qualquer lugar do mundo.

Regra extra: Só dois profetas e dois príncipes por geração. Dois de cada natureza (afinal, a mãe é estéril).

Regra extra: Ao transferir vida, forma-se um elo espiritual (isso explica as cenas entre Lodz e Ruthie).

Sobre algumas exceções na dinastia, que são "avatares especiais": A Alpha, O Omega e O Condutor da Destruição (Usher of Destruction).

- A Alpha

A primeira Avatar que existiu. Ela foi a única mulher a dar a luz a dois Avatares (Um de cada Casa). Todo o resto que se sabia sobre ela perdeu-se no incêndio da biblioteca de Alexandria.

- O Usher

Ele sempre foi profetizado por dinastias ao longo da história. Por isso sempre esteve presente em várias culturas, e sempre foi associado à destruição e ao Armageddon. Na série, percebe-se através dos sonhos que O Usher é o Brother Justin, e sua representação espiritual é o homem tatuado. Só pode ser morto por uma lâmina ungida por Vitae Divina através de seu coração. Como eu amo a simbologia em Carnivàle! 

- O Omega

É quem traz o fim a era da magia (Age of Wonder). Afinal, é o contrario de Alpha (Começo e Fim). A Omega é a unica exceção de Avatar feminina junto com a Alpha. Sabemos agora quem é a Omega, não? O desenrolar da natureza do Omega e os conflitos internos da Sophie seriam parte importante das temporadas seguintes.


"Era você quem lia as cartas."

Voltando ao passado, temos Belyakov (Gerência), que quase foi morto pelo urso (ele chama esse evento de "ataque covarde de Scudder"). Ele abraçou completamente seu destino como Avatar da luz. E é essa justamente a função do avatar: aceitar seu destino, seja bom ou ruim. Em alguns casos seu destino é inspirar as pessoas em outros lutar contra a outra casa. De alguma forma ele deve ser um elo na corrente que levará a humanidade a Destruição/Armagedom ou ao "Nirvana". Ele aceita seu destino e quer consertar seu erro de ter aceitado o seu destino tarde demais matando o seu adversário, Scudder. Ele chega à essa realização após o ataque do urso, e ele teria morrido se não fosse um avatar e não tivesse uma resistência sobre-humana. Ele passou a estudar e se dedicar a dominar seus poderes. Descobriu que toda geração nasce uma criatura da luz e uma das trevas, enfim, estudou a gnose Avatar.

Descobriu que é mais comum um avatar não realizar seu potencial completo devido à ignorância e medo de que eles têm de suas próprias habilidades. Esses avatares sofriam muito, e infortúnios caiam sobre seus entes queridos, resultando em loucura e com isso seus poderes atrofiavam.

Descobriu que grandes profetas através da história incluem Jesus, que foi um excelente Avatar da Luz, assim como Buda. Além disso, Rasputin e Calígula foram Avatares da Escuridão com potencial completamente realizado, etc....

Belyakov foi para America, e tempos depois localizou Hawkings. É aí que a série começa, seguindo a trilha de Scudder e tutelando o seu Príncipe, o protagonista da série.

Carnivàle é cheia de mistérios, e entender as regras possibilita ver todas aquelas cenas enigmáticas com outros olhos. Mas por mais que o fantástico seja fascinante, ele é apenas um plano de fundo para os dramas humanos, com os quais Carnivàle sempre destacou-se dos outros seriados na época. Então o que queremos realmente saber, é o que aconteceu com os personagens, não é verdade?

A 4ª temporada começaria com uma elipse de 5 anos: Jonesy sobrevive ao tiro e está jogando beisebol de novo, e ele já é famoso. Ainda está casado com a Libby, que é a tipica mulher de celebridade em '39. Eles têm uma criança.

Sofie, minha personagem preferida teria destaque nas temporadas posteriores

Brother Justin sobrevive também. Não poderíamos seguir sem Clancy Brown, né? Ele está de volta, e é super influente por causa das transmissões de seus sermões via rádio. Porém, está muito doente e fraco por causa da ferida com a lâmina ungida. Ele é apenas uma fachada, e quem está realmente na influencia são as mulheres: Sofie e Iris, que lutam pelo poder. Sofie sendo o omega é a mais perigosa das duas. Mas Iris não deve ser subestimada! Sofie agora tem medo dela mesma, pois ela tem a inclinação moral das duas casas. Seu conflito interno e a natureza do Omega demorariam 2 temporadas para se completar. Há uma criança na morada desse núcleo. Ele tem 4 anos e chama Justin de pai. Mas os espectadores ficariam na dúvida em relação a paternidade, pois lembramos do romance entre Hawkins e Sofie. sabemos que criança pode ser do Hawkins. Justin e Sofie se casam em algum momento da terceira temporada

Yep. Não é da HBO sem incesto.

Para nossa tristeza, a trupe se dispersou. Apenas Sansom e Hawkins continuam em circo, mas estão viajando com uma trupe na europa, com a inteção de seguir a trilha das investigações de Belyakov para tentar encontrar documentos e "talismas" e é aí que talvez aparecesse na série de forma canônica essas regras da mitologia. Provavelmente nessas investigações que iam descobrir sobre a Omega, o "Manuscrito de Sauniére" tão citado na série por Smith, o assitente do oculto de Justin no final da segunda temporada. Talvez encontrassem algumas Vectori malucas lá na Europa.

O criador da série então diz que em seguida, Hawkins e Samson iam reunir novmente a velha equipe de Carnivàle, pois eles são seguidores do Hawkins (Paralelo Messiânico). Eles iam enfrentar um conflito e proteger-se dentro do grupo do Circo, pois a  Ordem de Jericó os ameaça. Essa ordem,  de acordo com o roteiro base, era um equivalente do "KKK", que pregava ódio contra outras religiões, etnias (e circenses e ciganos!), da qual Justin havia se tornado líder.

Ben e Sofie entra a 4ª e 6ª temporada continuam um romance. Na 5ª temporada, um dos temas principais é parar a bomba, o "falso sol de trinity" que acabou com a "era da magia" que Samson menciona em seu primeiro monologo. Ben interpreta isso como o fim do mundo, o Armagedom. Mas ele eventualmente descobre de alguma maneira que isso na verdade é só o fim dos avatares. A reviravolta final, é que Sofie e Hawkins decidem sacrificar seu filho na explosão

Bom, mesmo com a entrevista, ficam muitas pontas soltas...

Sofie, sendo a Omega, deve fazer o que?

Acabar com os avatares e depois morrer também?

O diretor da série deixa implícito que nas temporadas finais aconteceria algo que faria com que Ben decidisse que os avatares não deveriam mais existir, algo muito ruim...

O que o leva a tal decisão seria um dos temas principais da temporada final, e o arco final dessa temática, seria Hawkins chegando a conclusão de que a era da razão pode ser tão nobre quanto a era da magia (explicando em outras palavras: na era da razão, não temos avatares, na era da magia, os temos). 


O criador da série diz que Hawkins perceberia que a era da razão não é tão ruim. A explosão da bomba nuclear (vista em sonhos proféticos na série), abriria uma era da razão, e que, no mundo real já aconteceu.

Éramos "crianças" (a humanidade) antes da detonação daquela bomba no deserto 1940. A "Era Nuclear" fez com que nós contemplássemos nossa própria mortalidade, e que perceber que podemos destruir a si mesmos; aniquilação total em segundos, fez com que crescêssemos.

Agora somos "adultos" e cuidamos da camada de ozônio, por exemplo.

Atingimos um novo nível de existência, separados da natureza e sim, e somos capazes de atos de crueldade e holocaustos, sim.

Mas ao mesmo tempo, somos a única especie que faz algo como resgatar uma baleia encalhada... somos a única espécia capaz de refletir sobre o que fazemos....

E crescemos muito ao deixar "coisas infantis" da Era da Magia para trás.

Obs: essa postagem é baseada nas informações do roteiro da série "Carnivàle pitch document e uma entrevista com o criador da série.

Sugiro a leitura integral da entrevista: Parte 1 e parte 2

05/12/2017

As perguntas do professor reflexivo

1 - De que modo estou trabalhando?
2 - Para quem trabalho? 
3 - Qual a finalidade do ensino da minha disciplina?
4 - Por que trabalho desta forma?
5 - Alcanço os resultados almejados no meu trabalho?
6 - Que conhecimentos e capacidades os alunos desenvolvem por meio do que ensino e da forma como ensino?
7 - De que forma posso tornar mais eficaz minha prática?

Mas eu não tenho criatividade!

É muito comum que o aluno não saiba por onde começar o texto. Se você oferece ajuda, você ouve a resposta de sempre: mas, professor, eu não tenho criatividade!

Pensando nisso, eu preparei material sobre escrita criativo e posto no blogue sob a tag Escrita criativa.

1 - Planejar o texto

Não saber como proceder pode ser a raiz da frustração dos alunos que "não sabem escrever. Pedir que o aluno planeje o texto pode ser uma boa estratégia.Escrever o começo de uma história sabendo qual será o final pode não apenas melhorar o texto, mas também tornar a experiência menos frustrante.

2 - Incentivar a escrita por prazer

Alguns alunos escrevem por vontade própria em blogues, aqui mesmo na blogosfera. Nesse tipo de suporte, seus textos costumam ser relatos pessoais, confessionais, poemas, opiniões sobre séries, etc...

Existem também sites dedicados a fanfics*, como o Spirit. Aliás, nesse site, há uma seção com dicas de português!

*Fanfics são histórias escritas por fãs. Esses fã-escritores partem duma história que já existe e escrevem a sua própria versão.

No entanto, ao mesmo tempo que a internet ajuda, ela atrapalha. É muito comum eles misturarem a linguagem da internet e abreviarem palavras como "vcs", ou até mesmo usar emojis em textos escritos à mão! Resultado de imagem para gasp emoji

3 - Para escrever bem, o aluno deve ler bastante

Escrita e leitura andam de mãos dadas. Se o aluno não tem o exemplo dos bons textos, será bem difícil que se expressem com clareza em qualquer gênero.

4 - Reescrever

O texto não fica pronto de primeira. Use um computador, use vários rascunhos...
Vá refinando, adicionando (ou tirando) palavras para aumentar a clareza ou a estética do seu texto.

Resenha do livro - O Oitavo Mago

Aproveitando as férias, reascendi minha obsessão pelos livros da série Discworld, do já falecido, autor Britânico, Sir Terry Pratchett.

E o livro da vez é:

Ano: 2003 / Páginas: 264
Idioma: português 
Editora: Conrad

O Oitavo Mago (Sourcery) foi publicado no Brasil em 2003 pela Conrad, é o 5º livro da série Discworld e o 3º centrado em Rincewind, que representa o núcleo dos magos dentro da série de livros. No núcleo dos magos, Pratchett tira sarro dos absurdos que se fazem no meio acadêmico: os magos estudam numa instituição chamada Universidade Invisível, onde não é o estudo da magia que importa, mas sim a hierarquia e as formalidades.

Rincewind tem muito orgulho de ser mago, mas não consegue nem acender uma vela com magia. Ele é medroso e é um imã de perigo.

E nesse livro não é diferente, pois logo surge o conflito que nesse livro é, bem, você adivinhou...


O Oitavo Mago.
Esse é um mago extremamente poderoso, resolvido a acabar com tudo que não é mágico. 

Ele se chama Coin e tem 10 anos.

Ele é uma criança que está sendo controlada por um mago ressentido por ter sido expulso da Universidade Invisível mesmo sendo um ótimo mago.

Logo que o menino chega à Universidade, ele inicia o conflito e começam as desventuras de Rincewind, que ao longo do caminho encontra personagens que servem para satirizar as convenções do gênero da ficção fantástica: temos, por exemplo, Nijel, um garoto que quer ser um grande guerreiro, mas não tem aptidão nenhuma para tal.

Publicando quase 40 livros apenas para a série Discworld, o autor vendeu mais de 85 milhões de livros em 37 línguas diferentes. 

E qual é a fonte da magia dos livros de Pratchett, que encantam tantos leitores há tantos anos?

Uma das fontes parecem ser os seus insights perspicazes sobre o cotidiano e suas sátiras filosóficas sobre a vida. que são uma ótima base para mais uma história protagonizada por Rincewind, que embora tenha muito orgulho de ser mago, não consegue fazer magia alguma. 

O problema, é que a leitura de O Oitavo Mago estava extremamente lenta, e eu não entendia o porquê. Troquei para a versão do livro com o texto original em inglês e a leitura fluiu muito melhor.

...

Eu tenho a certeza de que é imensamente difícil traduzir os textos de Terry Pratchett.

A começar pelo título, que no original, Sourcery, é um jogo de palavras que diz esta é magia fonte (source) de todas a magia.

O texto que era repetitivo, melhorou bastante quando eu troquei para a versão em inglês, pois daí,  eu lia as palavras exatas que o autor queria dizer. Afinal, nada substitui o texto original.

O grande problema, é que apesar do texto ficar mais divertido, o conteúdo da trama em O Oitavo Mago não é o melhor que Pratchett já criou.

Quem já leu A Cor da Magia ou a Luz Fantástica, ambos protagonizados por Rincewind, já sabe qual é a desse livro: Rincewind se mete em alguma confusão, ele faz um comentário cínico e escapa da morte certa por pura sorte.

Tudo muito legal, tudo muito engraçado, repete até o final do livro. E é a mesma coisa em O Oitavo Mago.

Eu ainda não consegui ler os livros mais recentes do Discworld, mas aqui, a fonte da magia mostra ter se esgotado, pois esse livro pode ser mais do mesmo (principalmente se você já leu os outros livros que têm Rincewind como protagonista. Sendo um grande fã de Pratchett, parece-me alarmante que o 5º livro da série tenha esse problema...

Mas pensando bem... ele não chegou a publicar 40 livros se todos eles fossem assim repetitivos.

O livro é bom, altamente citável e perspicaz. Mas se você não conhece os livros da série, este não deve ser o seu livro porta de entrada para a série Discworld.

Não é o melhor...

Mas é Discworld!

E se você se interessou, infelizmente tenho más notícias: o livro está esgotado no Brasil. Se você consegue ler o texto original, em inglês, recomendo que compre o e-book.

Se você precisa ler em português, o único meio é a pirataria:

Para baixar o e-book clique aqui.

04/12/2017

Estudando para a prova: Grande Sertão Veredas

Resumo da obra

Características da obra:

O que faz o Grande Sertão ser um grande livro é a linguagem.

Estilo de linguagem

Uso ostensivo de palavras raras, que caíram em desuso. Neologismos (palavras inventadas), misturando raízes do inglês, latim e alemão.

Construções sintáticas originais e pontuação sincopada que imita uma prosa oral inexistente.

Tom da narração

O narrador possui uma sabedoria irônica que só pode ser adquirida por meio de experiências.

O narrador possui verdades formadas, mas ao mesmo tempo é aberto à ideias diferentes.

Diário de leitura: Grande Sertão Veredas

Sob a tag "Diário de Leitura" escrevo sobre o que eu estiver lendo no momento e quais são minhas primeiras impressões.

Vou começar com um dos grandes livros da literatura brasileira!


Grande Sertão: Veredas

Nas aulas de Literatura os professores falavam muito desse livro.

Inclusive davam muitos spoilers.

Demorei para começar o livro por conta de sua fama de livro difícil.

A curiosidade venceu, comecei o livro e constatei que, realmente, o livro é difícil.

O livro tem uma escrita cheia de palavras estranhas e construções sintáticas inusitadas, sendo conhecido pela abundancia neologismos.

Com o tempo você se acostuma com a linguagem e o difícil do livro é justamente o seu aspecto mais legal. Estou na metade do livro e já é um dos meus favoritos.

Mesmo assim eu sinto que perco o sentido de alguns trechos. Aí eu me pergunto: devo esperar até que eu esteja mais esmarte* para ler livros mais dificeis?

*Esmarte é um neologismo que eu roubei do livro. Provavelmente vem do inglês, smart.

A gente esquece que isso é absolutamente normal não entender algumas partes.

Você não é o único!

É normal não entender algumas partes...

Aproveite edições com notas e consulte a internet nas partes que você não entende. Dá mais trabalho mas também é mais recompensante.

Grande Sertão não é uma leitura fácil, mas é interessantíssima. Recomendo para quem gosta de linguagem

Deixe nos comentários os medos literários que você já conquistou e os que ainda quer conquistar!

Abraços!

03/12/2017

Análise do livro: Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

Resenha crítica para o livro Incidente em Antares

Publicado em 1971, Incidente em Antares é o último livro de Érico Veríssimo. Com um humor e ironia afiados, Incidente é abertamente político em sua sátira. O autor não esconde a sua crítica ao autoritarismo brasileiro, e é um milagre que não tenha sido censurado pelo Regime Militar.
Incidente é dividido em duas partes. Na primeira, é narrada a história de Antares, uma pequena cidade fictícia do Rio Grande do Sul. Essa primeira parte conta quase 200 páginas, nas quais o autor descreve fundação de Antares, as tradições, etc. Não é à toa que Veríssimo é um escritor conhecido por seus romances regionalistas, como O Tempo e o Vento e Olhai os Lírios do Campo, pois o livro presentemente analisado segue essa tendência. Mas Incidente não é apenas um romance regionalista. Veríssimo dedica a primeira parte do livro a desenvolver um fundo temático da história e preparar o terreno para a segunda parte. Narra, por exemplo, o histórico violento da cidade, em que duas oligarquias disputam o poder dentro de Antares: a família Vacariano e a família Campolargo, que lutam para manter seus privilégios (e para isso não têm medo de usar a violência contra a cidade ou contra a família rival).
É por meio de diferentes gerações dessas famílias, que Veríssimo expõe as hipocrisias da sociedade brasileira. Por exemplo: Tibério Vacariano ironizava a figura de Getúlio Vargas, enquanto os membros da família Campolargo o defendia. O fato de que duas gerações depois, quando o Brasil se sob a liderança política de Jango e Brizola, as duas famílias se unem para conseguir manter seus privilégios é outro exemplo. É dessa maneira, que a história do Brasil e as narrativas do livro vão se entrelaçando. Portanto, além de romance regionalista, retratando seu estado de origem, Veríssimo também traz nesse livro uma declaração sobre o Brasil: será que o brasileiro é honesto e cordial por natureza mesmo? Antares funciona como um microcosmo da corrupção, injustiça social, e violência no Brasil.
Na segunda parte, o autor se aproveita do desenvolvimento de personagem e de cenário que fizera até então para ter como base para a narração do conflito principal do livro. Cansados de serem explorados, as tensões crescem, e as classes operárias começam a ficar descontentes. Quando irrompe a greve geral, os coveiros da cidade também participam, e isso impede o enterro dos mortos. Naquele dia, com as tensões em alta, morreu uma quantidade alta para uma cidade como Antares. E as sete pessoas, por ficarem sem sepultamento, voltam a vida, causando assim o incidente que dá nome ao livro.
Segundo Bordini (2006), a ideia para o livro surgiu quando Veríssimo viu uma foto em uma revista norte-americana que mostrava coveiros em greve deixando mortos à espera de sepultamento. Com isso ele criou a hipótese: E se esses mortos decidissem fazer greve contra os vivos?
É aqui que Érico Veríssimo se vale do realismo fantástico, em que a premissa da história simplesmente é. O acontecimento é sobrenatural e dispensa explicações ou racionalização. Aliás, o Incidente é eficaz justamente por isso: o autor dá o mesmo tratamento que dá para a parte mais absurda do livro que dá e para a parte mais histórica. As duas partes ganham o mesmo tratamento; as duas são ricas em detalhes do cotidiano e com uma seriedade de coisa que existe (mas o narrador onisciente sempre parece ter um sorrisinho de canto de rosto, satirizando todas essas situações). Embora essas duas facetas do livro recebam o mesmo tratamento, é interessante notar um contraste que existe entre essas, sendo que a primeira parte do livro às vezes assemelha-se a uma série de registros históricos, enquanto a segunda, é bem mais centrada na ação de personagens.
Seguindo esse espírito do realismo fantástico, os mortos acordam e tratam a situação de forma bastante prosaica. Para os mortos-vivos é inadmissível que eles sofram ainda mais esse indignidade, mesmo depois de mortos. Ou alguns dos mortos insepultos, que levantam de seus caixões e encaram a situação como um simples inconveniente. Eles são tão pragmáticos, que ao acordar, juntos, elegem como líder dos mortos Cícero Branco, advogado respeitado em Antares que morrera de AVC na véspera da greve geral. Os insepultos não se sentiam mortos, de fato, não se sentiam nem um pouco diferentes do que sentiam na noite anterior. Mas tampouco sentiam que tinham direito à vida ou queriam continuar a viver. Por isso, (depois de muito debate, lógico!) decidem marchar rumo a um coreto que se encontra no centro da cidade e exigir que fossem enterrados. Chegando lá, obviamente causam pânico absoluto na cidade. Eles esperam pacientemente enquanto o terror da população se transforma em curiosidade mórbida, e, com isso, os vivos se reúnem para ouvir o que os mortos têm a dizer. Com mais doses de realismo fantástico e sátira, os vivos, absurdamente, negam o pedido dos insepultos. Eles simplesmente pedem desculpa pelo “inconveniente”, e argumentam que é impossível enterrá-los por conta da greve geral. Com isso, os mortos ficam enfurecidos e decidem se vingar.
Mas qual é a arma que os mortos têm contra os vivos? A verdade. Eles sabem todos os podres de vários membros importantes da sociedade antarense. Adiciona-se a isso, o fato de que ao morrer, os insepultos estão sem as máscaras do dia-a-dia e sem as amarras sociais dos vivos, então eles não têm medo nenhum de confrontá-los com todas as verdades que eles têm para denunciar. Com isso, eles convocam todos os vivos para que comparecessem ao coreto na praça central da cidade para fazer uma espécie de julgamento da cidade.
Eles são um inconveniente para a cidade, que se recolhe, num primeiro momento por pânico e medo de um “juízo final” que estaria a acontecer, e num segundo momento por simples inconveniência: os mortos são uma vergonha para a cidade, eles têm um cheiro muito forte e atraem ratos, moscas e aves de rapina. Talvez motivados a vingarem a indignidade sofrida pelos vivos, denunciam toda a hipocrisia da sociedade antarense. Junta a Dona Quitéria e ao Advogado, temos os outros cinco membros da comitiva dos mortos. Esses, são arquétipos que representam classes da sociedade brasileira. Barcelona, por exemplo, representa a classe operária, Erotildes, as pessoas que vivem à margem da sociedade.
Em vida, Erotildes foi uma prostituta. Ela aproveita a atenção que ganha durante a assembleia dos mortos denunciando seus clientes mais notórios. Muitos cidadãos “de respeito” usavam seus serviços, traindo suas esposas. Além de tudo isso, Erotildes foi negligenciada pelo médico da cidade, levando-a ao óbito, e o julgamento no coreto torna-se uma oportunidade de denunciar o médico.
Barcelona, um sapateiro anarquista, representa ao mesmo tempo a classe operária e a filosofia política que ameaça a ordem (mais especificamente, ameaça a posição de poder das famílias mais poderosas de Antares) do microcosmo de Antares.
Temos ainda João Paz, um comunista torturado pela polícia. Sendo que o julgamento na praça do coreto no mundo de Antares aconteceu logo antes do golpe militar no mundo real, é relevante que o fantasma do comunismo seja para esses personagens uma ameaça (assim como foi alegado durante o golpe militar de 64 que o motivo era deter a “ameaça comunista”). Essa linha de história é uma das mais tristes do livro e reflete as torturas que aconteciam no contexto histórico do Brasil sob o regime militar.
Não menos importantes, temos Pudim de Cachaça, um alcoólatra que morreu envenenado pela esposa e Menandro Olinda, um pianista genial que não teve reconhecimento e fama que almejava o qual Veríssimo usa para satirizar o intelectualismo de aparências da sociedade brasileira. 
Publicado durante a Ditadura Militar, Veríssimo não teve medo de escrever um romance que é uma alegoria de um Brasil em crise. O Incidente que ocorreu em Antares (cidade que poderia ser qualquer cidade do país) não é exatamente os mortos voltando a vida, mas também um confronto da sociedade brasileira consigo mesma.
Outro ponto positivo do livro é a sua linguagem, cheia de neologismos e regionalismos. O verbo "filho da putear", por exemplo. Por conta da cidade fictícia de Antares ter fronteira com a Argentina, o livro traz bastante regionalismos nas falas do personagens que vem do espanhol, que cumprimentam-se com buenas e misturam radicais do português com afixos do espanhol.
Concluindo, a obra de Veríssimo é conhecida por retratar o Rio Grande do Sul em seus romances regionalistas. No entanto, Incidente, seu último livro não retrata apenas os costumes dos gaúchos, mas retrata todo o Brasil. O autor localiza essa narrativa numa cidadezinha que faz fronteira com a Argentina, fazendo dela um microcosmo do país inteiro. O embate entre Vacarianos e Campolargos que marcou as gerações da cidade pode muito bem representar as crescentes tensões na jovem democracia em formação que era o Brasil ao longo do século 20. As duas famílias tinham ideias políticas diferentes, mas em última análise têm apenas lutado para manter sua posição de privilégio, controlando várias fontes de renda e de prestígio social ao redor de Antares. Veríssimo está em plena forma ao trazer uma alegoria sociopolítica para o Brasil em Incidente. O incidente que dá nome ao livro causou bastante inconveniente aos cidadãos antarenses, que não suportavam mais o mal cheiro, mas foi quase que completamente esquecido por eles quase que imediatamente. Mas como ignorar, o cheio que era descrito com tanta frequência na parte dois do livro? O cheiro que outra alegoria, dessa vez para as hipocrisias e crimes morais dos brasileiros, os quais preferimos confortavelmente ignorar.

Referências

Érico Veríssimo. Incidente em Antares.

Maria da Glória Bordini. Incidente em Antares - a circulação da literatura em tempos difíceis. Revista USP, 2006. Disponível em: < https://blogdoims.com.br/bate-papo-erico-verissimo-e-incidente-em-antares/> Último acesso em 18/11/17

01/12/2017

O Desmundo de Oribela


Análise do filme: Desmundo (2003)
Duração: 101 minutos
Idioma: português (arcaico)
Sinopse: Brasil, por volta de 1570. Chegam ao país algumas órfãs, enviadas pela rainha de Portugal, com o objetivo de desposarem os primeiros colonizadores. Uma delas, Oribela (Simone Spoladore), é uma jovem sensível e religiosa, que se vê obrigada em casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), homem rude, que a leva para seu engenho de açúcar.

Vamos à análise!

Esse filme é muito usado com intenções pedagógicas, mas cuidado: há cenas fortes.

Desmundo conta a história de Oribela, uma jovem portuguesa, e sua vida nova no Brasil colonial.

Claro que esta é uma simplificação grosseira do que o filme consegue dizer em seu tempo de exibição: Desmundo não conta apenas a história de Oribela, mas conta a gênese violenta de um Brasil que não é mundo, pois as condições de sobrevivência nessa época (recriadas magistralmente) eram horríveis.

A personagem principal não tem segurança nem lugar na sociedade. Ela vem de Portugal para um desmundo em que ela perde completamente sua agência.

Quando ela chega ao Brasil, ela é uma jovem tímida e inocente, que serve como mercadoria da colonia (da mesma forma que os índios); sua única função é casar. 

Seu único esteio é sua fé, mas de nada adianta sua fé nesse desmundo violento e selvagem.

Simone Spoladori, Osmar Prado e Grande elenco

Visto isso, é de se imaginar que o resultado do casamento ao qual ela foi vendida: Oribela se vê absolutamente infeliz com o seu marido e com sua nova posição de submissão (inclusive sendo vítima de violência sexual).

Oribela é vítima de uma "não-sociedade" em que os índios nativos da região não são os únicos "selvagens": os colonizadores portugueses também contribuem para o "desmundo" instaurado ali.

O retrato do índio no filme também é muito interessante, e eles aparecem sendo catequizados (tentativa de categuização) pelos jesuítas.

O Brasil colonial é recriado primorosamente pela equipe do filme: do cenário ao figurino, esta é uma das melhores adaptações para o cinema que a literatura brasileira já teve (esse filme é adaptado do livro homônimo de Ana Miranda). O filme não sucede apenas em recriar o aspecto visual, mas também é uma das recriações mais sinceras do ponto de vista social: nada é romantizado aqui.

Nada é fácil nesse filme.

Nem mesmo a linguagem, que é um dos aspectos mais legais do filme, pois recriaram o português da época. Ou seja: é um filme em português que demanda legendas para que o espectador possa entender!

No fim, Oribela tenta fugir, mas como diz o marido à protagonista ao recapturá-la:  "São duros os grilhões que nos prendem".

E assim, da mesma maneira que o índio não teve um final feliz no fim do período colonial, Oribela também não teve esse final feliz ao final do filme.

Nota: 

Bom, é isso. Espero que tenham gostado e...

Se você precisa fazer um trabalho escolar sobre esse filme, não copie, pois plágio é crime. Aliás, não é por ciúmes do meu texto... você pode usá-lo à vontade!

O problema é que se o professor descobrir, você pode perder a nota, e o pior: copiando você não aprende!

Aliás, recomendo que leia a postagem do Professor Paulo sobre o filme, que você pode acessar aqui. 

E caso você tenha se interessado, pode assistir ao filme aqui (download gratuito pelo Youtube) e tirar suas próprias conclusões.

Abraços,

Professor Orkut Büyükkökten